Os sons da fala

Para entendermos como os sons da fala são produzidos, precisamos entender primeiro que consoantes e vogais existem em todas as línguas, mas são produzidas de maneiras diferentes pelo aparelho fonológico, No livro fonética e fonologia, Tais Cristófaro, faz a descrição dos seguintes seguimentos: consonatal, vocálico e glide.

Segmento Consonantal: um som que seja produzido com algum tipo de obstrução nas cavidades supraglotais, de maneira que haja obstrução total ou parcial da passagem as corrente de ar podendo ou não haver ficção.

Segmento vocálico: a passagem da corrente de ar não é interrompida na linha central e, portanto, não há obstrução ou fricção.

Segmentos semicontóides (glides): seguimentos com características fonéticas não tão precisas,seja de consoante ou de vogal.”

Ou seja existe um mecanismo complexo para produção dos sons, a autora Thaïs Cristófaro,  baseada em Abercrombie (1967), Ladefoged (1984) e , explica de forma profunda sobre as definições acima. Segue abaixo uma breve síntese:

DESCRIÇÃO ARTICULATÓRIA DO SEGUIMENTO CONSONANTAL

Qual o mecanismo da corrente de ar?  “A corrente de ar pode ser pulmonar, glotálica ou velar. Os segmentos consonantais do português com o mecanismo de ar pulmonar, este é o mecanismo utilizado normalmente no ato de respirar. O mecanismo de corrente de ar glotálico não ocorre em português e o mecanismo de corrente de ar velarico em algumas exclamações de deboche e negação.”
A corrente de ar: ingressiva ou egressiva  “Os segmentos consonantais  do português são produzidos com a corrente de ar egressiva. Já nos sons produzidos como a corrente de ar ingressiva o ar se dirige de fora para dentro do pulmões (como se estivéssemos engolindo o ar). A corrente de ar ingressiva ocorre em exclamações de surpresa de certos falantes do Frances, e não ocorre em português.”

Obs: dialetos africanos, como o zulo ou hotentote possuem uma série de consoantes articuladas na inspiração, são chamados de CLIQUES, no português eles não tem valor fonológico, ex: beijo, muxoxo e o estalito lábiolingual. (aula do professor Milton Torres)

 

Estado da Glote  “Estes músculos são chamados de cordas vocais. Diremos que o estado da glote é vozeado (ou sonoro)quando as cordas vocais estiverem vibrando durante a produção de um determinado som, ou seja, durante a produção de um som vozeado os músculos que formam a glote aproximam-se e devido a passagem da corrente de ar  e da ação dos músculos ocorre vibração. Em oposição denominamos o estado da glote de desvozeado (ou surdo) quando não houver vibração das cordas vocais. Não há vibração das cordas vocais nem ocorre ruído durante a produção de um segmento desvozeado. Isto se dá porque os músculos que formam a glote encontram-se completamente separados de maneira que o ar passa livremente.”
Posição do véu palatino – Sons Nasais e Orais  “O que determina se um som é oral ou nasal é a posição do véu palatino, para isso precisamos acompanhar o que acontece com a úvula, pois ela localiza-se no final do véu palatino ou palato mole. Durante a produção da vogal a a úvula deverá estar levantada portanto o ar não terá acesso a cavidade nasal e não haverá ressonância nesta cavidade. Temos então um som oral. Na produção de uma vogal ã a úvula deverá estar abaixada e o ar deve então penetrar na cavidade nasal havendo ali ressonância. Temo então um som nasal. O véu palatino encontra-se levantado na produção dos segmentos orais p,l em oposição ao seu abaixamento na produção dos segmentos nasais m,n. qualquer segmento produzido como o véu palatino levantado obstruindo a passagem do ar para a cavidade nasal é chamado de oral. Um segmento produzido como abaixamento do véu palatino de maneira que haja ressonância na cavidade nasal é chamada de nasal.”

 

Articulador Ativo  “Os articuladores tem a propriedade de movimentar-se (em direção ao articulador passivo) modificando o trato vocal. Os articuladores ativos são: lábio inferior (que modifica a cavidade oral), a língua (que modifica a cavidade oral), o véu (que modifica a cavidade nasal) e as cordas vocais (que modifica a cavidade faringal). São articuladores ativos devido ao seu papel ativo (no sentido de movimento) na articulação consonantal. A língua é dividida em ápice, parte anterior, parte medial e parte posterior. O céu da boca é dividido em alvéolos, palato duro, véu palatino e úvula.”
Articuladores Passivos  “Os articuladores passivos localizam-se na mandíbula superior, exceto o véu palatino que esta localizado na parte posterior do palato. Os articuladores passivos são: o lábio superior, os dentes superiores e o céu da boca (alvéolos, palato duro, véu palatino e a úvula). O véu palatino pode atuar como articulador passivo(na articulação dos segmentos velares) ou ativo (na produção de segmentos nasais)”.


A posição do articulador ativo (AT) em ralação ao passivo (AP) nos leva a definir o lugar de articulação:

Bilabial: o AT é o lábio inferior e como AP temos o lábio superior.  

Ex: pá, boa, má.

Lábiodental: o AT é o lábio inferior e como AP temos dos dentes incisivos

superiores. Ex: faca,vá.

Dental: o AT é o ápice da língua e como AP temos os dentes incisivos

superiores. Ex: data, sapa, Zapata, nada, lata.

Alveolar: o AT é o ápice da língua e o AP temos os alvéolos. “Consoantes alveolares diferem de consoantes dentais apenas quanto ao AP. Em consoantes dentais temos como AP os dentes superiores. Já nas consoantes alveolares temos os alvéolos como AP. Ex: data, sapa, Zapata, nada, lata.

Alveopalatal: o AT é a parte anterior da língua e o AP é a parte medial do palato duro. Ex: Chá, Já.

Palatal: o AT é a parte média da língua e o AP é a parte final do palato duro.  Ex: banha, palha.

Velar: o AT é a parte posterior da língua e o AP é o véu palatino.                   Ex: casa, gata, rata.

Glotal: os músculos ligamentais da glote comportam-se como articuladores. Ex: rata (na pronúncia típica do dialeto de Belo)

“Definido o lugar de articulação sabemos qual é o articulador ativo e qual é o passivo envolvido na produção do som da consoante, porém existe uma maneira ou modo de articulação que esta relacionada ao tipo de obstrução da corrente de ar causada pelos articuladores na produção de um segmento identificando o grau e natureza estritura (maneira como se dá a obstrução da corrente de ar).

Oclusiva  

       Os articuladores produzem uma obstrução completa da corrente de ar através da boca. O véu palatino esta levantado e o ar vem dos pulmões encaminha-se para a cavidade oral. (são consoantes orais) ex: pá, tá, cá, bar, dá, gol.

Nasal       

       Os articuladores produzem uma obstrução completa da corrente de ar através da boca. O véu palatino encontra-se abaixado e o ar quem dos pulmões dirige-se as cavidades nasal e oral. Nasais são consoantes idênticas as oclusivas diferenciando-se apenas quanto ao abaixamento do véu palatino para as nasais. Ex: má, nua, banho. 

Fricativa  

        Os articuladores se aproximam produzindo fricção quando ocorre a passagem central da corrente de ar. A aproximação não chega causar obstrução completa e sim parcial que causa a fricção. Ex: fé, vá, sapa, Zapata, chá, já, rata(o r fricativo ocorre tipicamente no português do Rio de Janeiro e em Belo Horizonte). 

Africada          

     Os articuladores produzem uma obstrução completa da corrente de ar através da boca e o véu palatino encontra-se levantado, isso na fase inicial, na fase final ocorre uma fricção decorrente da passagem central da corrente de ar.a oclusiva e fricativa que formam a consoante devem ter o mesmo lugar de articulação (são homorgânicas). O véu palatino continua levantado durante a produção de uma africada. ex: tia, dia (ou tichia e djia, em outros dialetos do português brasileiro).

 

Tepe  

      O AT toca rapidamente o AP ocorrendo uma rápida obstrução da passagem da corrente de ar através da boca. O tepe ocorre em português nos seguintes exemplos: cara, brava.

Vibrante  

       O AT toca algumas vezes o AP causando vibração. Em alguns dialetos do português ocorre esta variante em expressões como (orra meu!), (marra). No estado de São Paulo e no português europeu ocorrem as consoantes vibrantes.

Retroflexa  

       O palato duro e o AP e a ponta da língua e o AT. A produção de uma retroflexa geralmente se da com o levantamento e encurvamento da ponta da língua em direção do palato duro. Ocorrem no dialeto caipira e no sotaque de norte-americanos falando português. Ex: mar, carta.

Laterais  

         O AT toca o AP e a corrente de ar e obstruída na linha central do trato vocal. O será então expelido por ambos os lados desta obstrução tendo portanto a saída lateral. Laterais ocorrem em português nos seguintes exemplos: La, palha, sal (como e pronunciado no sul do brasil)

Segmentos vocálicos

                Na produção de um segmento vocálico a passagem da corrente de ar não e interrompida na linha central, portanto não há obstrução ou fricção no trato vocal. São descritos levando-se em consideração os seguintes aspectos: posição da língua em termos anterior/posterior, arredondamento ou não dos lábios.

Altura da língua

         Este parâmetro refere-se à altura ocupada pelo corpo da língua durante a articulação do segmento vocálico. A altura apresenta a dimensão vertical ocupada pela língua dentro da cavidade bucal. Na descrição do português devemos considerar quatro níveis de altura: alta, alta-média, média-baixa, baixa.

Anteriodade / Posterioridade da língua

         Este parâmetro refere-se a posição do corpo da língua na dimensão horizontal durante a articulação do segmento vocálico. Dividi-se a cavidade bucal em três partes simétricas. Anterior – localizada na frente da cavidade bucal, Posterior – localizada na parte final da cavidade bucal e a parte Central localizada entre a parte final e inicial da cavidade bucal.

 

 

 

 

Arredondamento dos lábios

      Durante a articulação de um segmento consonantal os lábios podem estar estendidos ou podem estar arredondados. Estes dois parâmetros são suficientes para a descrição dos segmentos vocálicos.

 

 

Duração

              A duração é uma medida relativa entre os segmentos. O acento tônico, por exemplo, influenciam na duração de uma vogal. Assim as vogais acentuadas tendem a ser mais longas. Se este for o caso na língua a ser descrita, pode-se assumir que a duração é causada pelo acento e não em oposição a outras vogais do sistema daquela língua. Em algumas línguas é extremamente importante.

Ex: Inglês – “to leave” – sair [liː] e “to live” [liv] –viver.

Nasalização

           Se durante a articulação de uma vogal ocorrer o abaixamento do véu palatino, parte do fluxo de ar penetrará na cavidade nasal sendo expelido pelas narinas e produzindo assim uma qualidade vocálica nasalizada. Assim [ã] caracteriza o segmento [a] com a propriedade de nasalização. A nasalidade e a altura da língua na articulação das vogais estão intimamente relacionadas. Para uma vogal que é articulada com a língua em posição elevada – como i ou u – ser nasalizada, é necessário apenas um pequeno abaixamento do véu palatino permitindo então o acesso do fluxo de ar à cavidade nasal. a configuração do trato vocal é portanto bastante semelhante durante a produção das vogais i e u orais e das vogais i e u nasais.  

Tensão

            Segmentos tensos estão em oposição a segmentos frouxos. Um segmento tenso é produzido com maior esforço muscular do que um segmento frouxo, o segmento frouxo ocorre no português brasileiro em vogais átonas finais.  Ex; patu, safari. As vogais altas frouxas (átonas e postônicas ) em “patu, safari” podem ser contratadas como vogais altas e tensas.

 

 

Ditongos

           Um ditongo é uma vogal que apresenta mudanças de qualidade continuamente dentro de um percurso na área vocálica. Pode ser descrito e identificado com referencia ao segmento inicial e final do continuo. Ex: [aI] da palavra “pais” – ocorre um movimento continuo e gradual da língua entre duas posições articulatórias vocálicas: [a] até [I](ocupam uma única silaba). Um destes seguimentos é o núcleo da silaba (pais), o outro segmento é assilábico não podendo ser núcleo da silaba e corresponde a glide [ ̯ ], o diácritico serve para marcar a assilabicidade [´pa˰Is], o glide é [ I ].

Hiato

           O movimento articulatório de um ditongo difere do movimento articulatório de duas vogais em seqüência, mas quanto ao tempo ocupado na estrutura silábica e quanto à mudança de qualidade vocálica. O par de palavras “pais e país” ilustra um ditongo – na primeira palavra – em oposição a uma seqüências de vogais – na segunda palavra. Durante a articulação de duas vogais em seqüência – como a palavra “país”- cada vogal ocorre em uma sílaba distinta e cada vogal apresenta qualidade vocálica específica = hiato Em ditongos como na palavra “pais” os segmentos vocálicos [a] e [ I ] ocorrem na mesma sílaba e há uma mudança contínua e gradual entre as vogais em questão.

Ditongo decrescente e crescente

         Em uma seqüência de vogais que corresponde a um ditongo, ditongo decrescente é aquele em que a proeminência acentual ocorre na primeira vogal como <juizado> [ʒuI.ˈza.dʊ] – em que temo uma seqüência de vogal-glide. Em oposição, chamamos de ditongo crescente aqueles em que a proeminência acentual ocorre na segunda vogal como em [ʒʊi.ˈza.dʊ] , em que temos uma sequência de vogal-glide .

Rinolalia

Caracteriza-se por uma ressonância nasal maior ou menor que a do padrão correto da fala. Pode ser causada por problemas nas vias nasais, vegetação adenóide, lábio leporino ou fissura palatina.

 

Línguas tonais

São línguas em que palavras grafadas exatamente da mesma forma mudam totalmente de sentido em função da entonação (entonação, não pronúncia) com que são ditas.

Por exemplo: Wo yao mai yi bai bao (China). Pode ser: “Eu quero comprar um leopardo branco”, “Eu quero vender cem castelos”, “Eu quero trigo ainda branco e fino.

 

Sândi Externo ou o Encontro de Palavras

Denomina-se sândi um fenômeno de fonética sintática que ocorre quando uma vogal ou uma consoante, inicial ou final de sílaba, se encontra em determinado contexto. O sândi externo resulta do encontro entre dois segmentos separados por uma fronteira de palavra e depende das características das vogais e/ou das consoantes que entram em contato.

Quando a palavra termina com  ou  e a palavra seguinte começa com a mesma consoante, ou quando termina com  e a palavra seguinte se inicia com outra vibrante, , a consoante final e a consoante inicial fundem-se normalmente numa única, mesmo em fala pausada.

O Arquifonema:

Um arquifonema e o conjunto de rasgos comuns a dois fonemas de uma oposição que se neutraliza num determinado contexto.

Em Fonologia, a neutralização consiste na eliminação da oposição (diferença) entre dois fonemas num determinado contexto, de maneira que foneticamente soem iguais, ainda que se trate da realização de dois fonemas diferentes. Quando dizemos mata e nata, o m e o n são fonemas porque distinguem vocábulos.

O fonema é uma classe de sons. Por exemplo, o <r> inicial de <rato> pode soar como um h aspirado, como na palavra inglesa have (ter); pode soar como uma consoante glotal ou velar, semelhante ao ruído que se faz quando se limpa a garganta para escarrar; pode soar com a língua batendo nos alvéolos, ou como fazem os paulistas. Todas essas pronúncias possíveis do <r> inicial são simbolizadas assim: /r/. Esse símbolo representa todas as pronúncias possíveis do <r>, mesmo as que não descrevemos aqui. O arquifonema corresponde acusticamente a um dos fonemas neutralizados ou ao denominador comum de todos eles, contendo apenas os traços distintivos em comum. No exemplo da palavra “quis”, dizemos que é o arquifonema /S/.

Arquifonema /S/ (em posição final de sílaba)

[s], [∫]: diante de pausa e antes de consoante desvozeada (surda).

[z], [ʒ]: antes de vogal, antes de consoante vozeada (sonora) e antes de consoante nasal.

Variantes Diatópicas

*[∫] e [ʒ] antes de consoante alveolar vozeada ou desvozeada [t, d, n, l].

* fricativa alveolopalatal + africada alveolopalatal [∫] e [ʒ] antes de [t∫], [dʒ] (palatalização), no dialeto de Belo Horizonte: [ka∫‘t∫igә], “castiga”, e [dʒiʒ‘dʒisI], “desdisse”.

 Arquifonema /R/ (em posição de final de sílaba ou palavra)

*[h], [x], [R]: diante de pausa , antes de consoante desvozeada (surda) e antes de consoante nasal.

*[ɦ], [γ], [R]: antes de consoante vozeada (sonora).

*[ɾ], [ɾ], [R] : entre vogais.

Variante Diatópica [s, z] x [∫, ʒ] (em posição de final de sílaba)

*[s, z] são usados na maioria dos dialetos brasileiros.

*[∫, ʒ] são usados no dialeto carioca.

Variante Diatópica [t, d] x [t∫, dʒ] (diante de [i])

*[t] e [d] : no dialeto de Pernambuco.

*[t] e [d] diante de [I]: ocorre na maioria do dialetos do Brasil.

*[t∫], [dʒ] : na maioria dos dialetos do português do Brasil.

Variante Diatópica [∫, ʒ] x [t∫, dʒ] (em posição intervocálica)

*[∫], [ʒ] : na maioria dos dialetos do português do Brasil  e [t∫], [dʒ] no dialeto de Cuiabá.

Variante Diatópica [Ĩ] x [ɲ] x [nj]
* Ĩ (glide palatal nasalizado, na maioria dos dialetos do português brasileiro)/ɲ (consoante nasal palatal)/nʲ (consoante nasal alveolar palatalizada), em Belém do Pará.

Variante Diatópica [I] x [λ] x [lj]

*I (lateral alveolar vocalizada, no dialeto caipira (paulista/mineiro).

*λ (consoante lateral palatal).

*lʲ (consoante lateral palatalizada, na maioria dos dialetos do português do Brasil).

Variante Diatópica [w] x [ł], em final de sílaba

*w (consoante lateral vocalizada, na maioria dos dialetos do português Brasil).

*ł (lateral velarizada, em alguns dialetos de Portugal e do sul do Brasil).

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